Há muita discussão e polêmica em torno da ideia ou previsão de que as tecnologias baseadas na Inteligência Artificial (IA) moderna, em particular em sua modalidade generativa, irão mudar profundamente a vida de todas as pessoas. Parece haver enorme resistência entre algumas pessoas.
Natural que alguns grupos de pessoas ou profissionais, em especial, estejam receosos sobre seus futuros. Toda potencial mudança no ambiente gera incerteza sobre o que será necessário fazer para sobreviver nos novos mercados. Reinventar-se não é uma tarefa trivial, e no fim não estamos mais preparados para mudanças drásticas em nossas condições. De certo modo, “modernidade” pode ser convenientemente traduzida por “estabilidade”. Mesmo mudanças estruturais mais limitadas, como uma redução na taxa de juros do Banco Central americano, ou um ciclo de pandemia global, já tem o potencial de desestabilizar a vida de muitos de nós. O que dizer da rápida evolução e disseminação de uma tecnologia tão transformativa quanto a IA moderna.
Outros talvez estejam reagindo ao hype gerado em torno da IA. Se o potencial é grande e a introdução rápida, mas incerta, não serão poucos – de charlatões a empresas sérias – que vão optar por fazer a entrada mais apoteótica possível nesse mercado, e pegar a máxima parcela possível do dinheiro que se tem na mesa no momento. Desse modo, é natural que muitos reajam ao hype com rejeição, seja desconfiança genuína, seja calculada (ninguém quer ser confundido com aqueles que alimentam o hype).
Para complicar as coisas, esta provavelmente é a primeira vez em nossa história em que estamos acompanhando em tempo real a introdução de uma tecnologia com tamanho potencial transformador. Isso só é possível fazer com Internet “amplamente disponível” – em 2023 éramos “apenas” 63% da população mundial, mas 97% nos Estados Unidos e 87% no Brasil [1]. A tecnologia anterior com potencial “comparável” à IA (ainda assim ordens de magnitude inferior) foi… a própria Internet. Que a maioria das pessoas hoje vivas não pôde acompanhar o processo de introdução e difusão desde o início. E o processo pelo qual hoje acompanhamos qualquer coisa, magnificado pelo poder das redes sociais, só poderia ser descrito como “hiper-realista”, ou de um “realismo histérico”.