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Edição #58 - Março 2018

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Falando de Amor – Um começo

Existem palavras e alguns conceitos cujos significados estão distribuídos em vários domínios explicativos: na mitologia, na filosofia, na ciência, nas artes, na religião, no senso comum. Esse é o caso da palavra amor, que provavelmente é uma das mais utilizadas em domínios tão diversos.

Tento promover primeiramente uma reflexão sobre as emoções - ou paixões como são também chamadas - que já encontra-se presente nos discursos pré-filosóficos, como na Teogonia, obra fundamental de Hesíodo, que narra o surgimento dos deuses, cujas primeiras divindades apresentadas são Caos, Gaia, Eros, Nyx e Erebus. Ou seja, Eros encontra-se como princípio gerador, uma energia expansiva que garante vida a tudo que vive (Ferry, 2009). Empédocles, em sua teoria cosmogênica das quatro forças elementares – terra, água, fogo e ar – acrescenta outras duas: amor e ódio, sendo que o primeiro deles atuaria no sentido da união e o outro no sentido inverso, da repulsão na formação do universo e no desenvolvimento da vida.

Quero apontar como a filosofia inova em relação aos mitos, trazendo narrativas conceituais que tentam responder às questões da existência humana. Uma das principais características nesta inovação é a narrativa que procura explicar a realidade por meio de "causas físicas", fazendo uso da retrospectiva causal até chegar às causas primeiras (arché). Então, o pensamento filosófico é distinto do pensamento mítico não só por fazer uso de narrativas conceituais e por tentar explicar a totalidade da realidade, mas principalmente porque esses "conceitos" tratam somente do mundo natural, físico (physis), e fenomênico e o faz somente a partir de explicações e causas igualmente naturais, e não "sobrenaturais" ou dogmáticas, fundadas na crença, como no pensamento mítico. Empreendimento feito pelos pré-socráticos, antes que Platão subvertesse a filosofia ao incluir nela explicações metafísicas.

Nos primórdios da filosofia, o louvor à Eros, esse ser complexo, habitante do entre-mundo homens-deuses, imperava acima da tentativa de sua compreensão e/ou explicação por vias racionais. Não obstante empecilhos metodológicos, os filósofos não diminuíram seus esforços elaborativos. A apresentação do amor na forma de eros e de philia foi – e ainda o é – uma das grandes questões filosóficas.

Nas traduções atuais, diz-se de eros como o amor com conotações sexuais e de philia como o amor entre amigos, a amizade. Essas traduções não captam todo o espectro de seus conceitos na Grécia clássica, onde essa separação era menos rígida e exigia uma dissertação não só sobre a palavra como nas atividades envolvidas.

Com o advento do cristianismo, cunhou-se a palavra ágape para amor, que podemos pensar como o amor que Jesus ensinava, amor pelo outro, pelo próximo, amor fraternal – visto que seríamos todos irmãos, tendo Deus como pai - em detrimento de si próprio. Esse amor tem pouco (ou nada) a ver com o gostar. A ordem era amar até os inimigos. A justiça como reparação fica submetida à lei do amor cristão. (Ghiraldelli Junior, 2011)

No curso da história da filosofia, de seu início até os dias atuais, foram muitos os filósofos que discorreram sobre o amor: Plotino, um filósofo grego, dizia que o amor é um desejo inesgotável que purifica e eleva o ser humano; para Agostinho, somente o amor é capaz de explicar a vida, a vida da alma e se elevar ao conhecimento de Deus; Tomás de Aquino relata a necessidade de amar a Deus para amar ao próximo; Spinoza fala do amor dos bons encontros que geram alegria; para Rousseau, o amor é filho da natureza e da liberdade, o amor nasce bom e se perverte no decorrer da vida social; Kant separou o amor prático do amor patológico, sendo o primeiro a disposição de agir de modo benévolo desinteressadamente, e o segundo aquele proveniente das paixões volúveis e irracionais; Schopenhauer acreditava que o amor era um “mal necessário” para a continuidade da espécie, sendo o nome que damos ao impulso de reprodução; Sartre via o amor como um ideal irrealizável. A proposta de Nietzsche nos mostra um amor pelo que acontece, pelo presente, sob a forma de seu amor fati, amor ao destino. Esse filósofo afirma o mundano, busca respostas na vida vivida. Na contracorrente do pensamento cristão, e no combate a ele, Nietzsche postula que a vida ordinária é o que se pode amar, para que a vida não seja unicamente a busca da salvação. Freud unificou todos esses significados afirmando que todas as formas de amor são derivadas do amor erótico, ligados a uma energia “psicofísica” que ele denominou libido. Ainda hoje, esse conceito freudiano é erroneamente interpretado no senso comum, que relaciona diretamente a libido ao desejo sexual.

A ciência, por meio da tecnologia, também colabora para essa compreensão e não foram poucas as pesquisas em torno do amor e do apaixonamento. O cérebro foi isolado como um “alguém” que se comporta independentemente do resto do organismo. O ser humano foi reduzido aos milhões de neurônios, seus neurotransmissores e suas sinapses. A tecnologia de ponta de neuroimagem funcional permitiu que o mapeamento de regiões cerebrais ativadas e desativadas servissem de subsídio para dezenas de explicações sobre nosso funcionamento quando amamos. E daí, para a mídia pseudo-científica divulgar frases como: “quando você está apaixonado, seu cérebro se comporta como se você estivesse sob o efeito de drogas”, “quando você não consegue tirar alguém da cabeça, culpe a queda de serotonina no seu organismo”, foi um pulo.

Que tipo de vida é possível a partir de cada uma dessas visões de amor? Qual será o ethos congruente com cada uma dessas visões ao identificarmos a emocionalidade básica presente em cada uma delas?

É possível construirmos um modo de viver que revele em seus atos sociais a auto-implicação individual, que possa resultar na construção de uma cultura emocionalmente diferente e eventualmente mais saudável da que vivemos?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERRY, L. A Sabedoria dos Mitos Gregos: Aprender a Viver II.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.    

GHIRALDELLI JUNIOR, P. Como a filosofia pode explicar o amor.  São Paulo: Universo dos Livros, 2011. 

Artigo publicado em 16/03/2018
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