Querida amiga e querido amigo da Revista Coaching Brasil.
Na edição 160, começamos uma conversa que sabíamos que não caberia em uma única edição. Falamos sobre emoções, sobre a maneira como aprendemos a percebê-las, compreendê-las e, principalmente, sobre a necessidade de reconhecer aquilo que durante tanto tempo aprendemos a separar da razão, das decisões e da vida profissional. Foi uma primeira aproximação com um território que, embora esteja presente em tudo o que fazemos, ainda permanece pouco explorado por muitos de nós.
Agora, na edição 161, damos um passo adiante.
Se antes a pergunta era o que são as emoções e qual o lugar que elas ocupam em nossa vida, agora nos aproximamos de uma questão essencialmente prática: o que fazemos quando elas chegam?
Porque elas chegam. No meio de uma reunião. Diante de uma decisão difícil. Em uma conversa que gostaríamos que fosse diferente. Quando alguém questiona nossa competência. Quando somos promovidos. Quando perdemos algo importante. Quando precisamos conduzir uma equipe em meio à incerteza. Quando somos contrariados. Quando estamos cansados. Quando precisamos tomar uma decisão e, por mais que conheçamos modelos, técnicas e ferramentas, alguma coisa dentro de nós começa a interferir na maneira como pensamos, percebemos e agimos.
A apresentação do dossiê, assinada por Marta Magnus e Ana Paula Schmitz, traduz muito bem esse movimento. Depois de explorar na edição anterior a importância de perceber, legitimar, compreender e normalizar as emoções, chegamos agora à aplicação prática da Regulação Emocional em ambientes de alta complexidade. A proposta da Dignity Inc parte de uma mudança interessante de perspectiva: em vez de tentar controlar aquilo que sentimos, podemos aprender a navegar nossas emoções, compreendendo a história, o impulso e o propósito presentes em cada experiência emocional.
E o dossiê nos leva por caminhos bastante provocadores.
Peter Rendina, em “O Oceano Interior”, utiliza a metáfora do mar para nos lembrar que não controlamos as ondas, as correntes ou a força do oceano. Podemos, entretanto, aprender a navegar. Julia Bonadei nos leva para outro cenário igualmente desafiador: as transições de liderança. Há um espaço entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando, e esse espaço pode ser emocionalmente muito mais complexo do que imaginamos.
Brenda Vallieu provoca uma crença bastante arraigada no mundo corporativo ao perguntar, na prática, se liderança e emoção realmente podem ser separadas. Sua reflexão sobre o “líder regulado” nos convida a perceber que compreender emoções em tempo real pode ser muito mais útil do que simplesmente tentar escondê-las. E, em “Quando as Emoções Encontram o Trabalho”, Jennie Gilbert toca em uma questão especialmente relevante: podemos saber exatamente como uma boa liderança deveria funcionar e, ainda assim, ter dificuldade de acessar essa competência quando estamos frustrados, ameaçados, ansiosos ou sob pressão.
O dossiê segue avançando até chegar a uma visão de futuro. Dan Newby e Marcel Brunel imaginam um mundo em que alfabetização emocional seja tratada como uma competência fundamental do desenvolvimento humano, tão importante quanto a alfabetização linguística. Um mundo em que líderes compreendam que o clima emocional que criam é tão importante quanto as estratégias que desenvolvem, e em que organizações reconheçam que aquilo que acontece no campo invisível das emoções também produz consequências bastante visíveis.
Mas, como acontece em cada edição da Revista Coaching Brasil, o dossiê é apenas uma parte da nossa conversa.
Rosana Marinari nos leva para o território da liderança “human-centric” e mostra como a forma de liderar interfere diretamente na disposição das pessoas para contribuir, aprender, assumir responsabilidades e falar sobre aquilo que precisa ser dito. Segurança psicológica aparece, assim, não como um conceito abstrato, mas como uma condição para que o conhecimento, a colaboração e a inovação possam circular.
Carlla Zanna amplia essa discussão ao tratar da liderança inclusiva e das métricas de saúde mental. Seu artigo nos convida a olhar com mais cuidado para aquilo que os indicadores tradicionais conseguem mostrar e, principalmente, para aquilo que eles podem deixar invisível. Em equipes cognitivamente diversas, compreender as diferenças entre as pessoas passa a exigir mais do que medir resultados. Exige compreender contextos e criar condições para que diferentes pessoas possam prosperar.
Calebe Luo nos oferece uma provocação de outra natureza. Em “O Fim do Conteúdo feito por IA (“AI Slop”)?”, acompanha nossa trajetória de livros para resumos, de resumos para vídeos, de vídeos para vídeos curtíssimos e, finalmente, para respostas produzidas em segundos pela Inteligência Artificial. A pergunta que fica é incômoda e necessária: quando conseguimos consumir informação cada vez mais rapidamente, estamos realmente aprendendo mais? Ou estamos apenas ficando mais rápidos em consumir aquilo que alguém, ou alguma máquina, considerou essencial para nós?
Carlos Legal, na coluna “Pra Quem Pensa”, acrescenta outra provocação ao perguntar: “Se estamos ganhando tanto tempo, por que estamos sempre com pressa?”. Talvez seja uma das grandes ironias do nosso tempo. Criamos tecnologias para economizar minutos e, frequentemente, utilizamos os minutos economizados para colocar ainda mais coisas dentro da agenda. A reflexão sobre aceleração social nos convida a pensar se ganhar tempo significa simplesmente fazer mais ou se, em algum momento, precisamos recuperar a capacidade de escolher aquilo que merece nossa presença.
Rolando Pelliccia nos conduz, então, para dentro do próprio Coaching Executivo. “O que Diferencia um Processo de Coaching Executivo de Alto Impacto?” é uma pergunta que interessa diretamente a quem atua profissionalmente nesse campo. Método, ética e resultados aparecem como fundamentos inseparáveis de um processo que pretende produzir transformação sustentável. Mais do que oferecer respostas, o coach cria condições para que perguntas melhores possam ser feitas e para que o executivo amplie sua capacidade de reflexão e decisão.
E Robson Santarém encerra nossa jornada com uma história aparentemente simples: “A Ratoeira”. Um rato percebe um perigo e tenta alertar os outros animais. Cada um olha para o problema a partir de sua própria perspectiva e conclui que aquilo não lhe diz respeito. Até que a ratoeira, que parecia ser um problema do rato, desencadeia uma sequência de acontecimentos que alcança todos. Uma pequena história sobre interdependência, sobre a dificuldade de perceber problemas que ainda não nos atingiram e sobre as consequências de acreditarmos que aquilo que acontece ao outro pertence apenas ao outro.
Talvez seja justamente aí que a edição 161 encontre sua unidade.
Falamos de emoções, liderança, saúde mental, inclusão, Inteligência Artificial, excesso de informação, pressa, Coaching Executivo e interdependência. À primeira vista, são assuntos bastante diferentes. Mas, olhando um pouco mais atentamente, percebemos que todos eles nos levam para uma mesma questão: nossa capacidade de perceber o que está acontecendo e escolher como responder.
E talvez essa seja uma das grandes competências humanas para os tempos que estamos vivendo.
Não basta saber. É preciso perceber.
Não basta perceber. É preciso compreender.
E compreender ainda não significa necessariamente conseguir escolher.
Entre aquilo que acontece e aquilo que fazemos existe um espaço. Às vezes esse espaço é muito pequeno. Uma palavra. Uma respiração. Um segundo. Uma pergunta. Uma mudança de perspectiva. Uma emoção reconhecida antes de se transformar em reação.
É nesse espaço que a Regulação Emocional começa a ganhar seu verdadeiro significado.
E talvez seja também nesse espaço que continuamos humanos.
Espero que esta edição lhe ofereça conhecimento, mas também boas perguntas. Que provoque reflexões que continuem trabalhando dentro de você depois que a leitura terminar. E que, sobretudo, ajude a ampliar aquele repertório que considero tão precioso para quem trabalha com pessoas: a capacidade de perceber melhor, compreender mais profundamente e escolher com maior consciência.
Porque, em tempos de velocidade crescente, talvez uma das maiores formas de inteligência seja justamente esta: conseguir permanecer presente o suficiente para escolher a própria resposta.
Te desejo, como sempre, uma excelente leitura.
Com meu abraço fraterno,
Luciano Lannes
Editor da Revista Coaching Brasil
Artigo publicado em 05/10/2026