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Edição #159 - Agosto 2026

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Editorial ed 159 - Discernimento

Querida amiga e querido amigo da Revista Coaching Brasil.

Há algumas edições, tomamos uma decisão editorial que talvez só agora revele plenamente o seu sentido.

Vivemos um período de profundas transformações e de exigências quase desumanas sobre as lideranças. Espera-se que entreguem resultados cada vez mais ambiciosos, conduzam mudanças constantes, promovam inovação, construam segurança psicológica, desenvolvam pessoas e mantenham equipes engajadas, tudo isso em um cenário de pressão permanente e velocidade extrema. À luz de minha vivência nos últimos 28 anos, em salas de treinamento e em conversas com lideranças e gestores de RHs, entendo que não faria sentido produzir apenas mais um conjunto de artigos sobre "como liderar". Parecia mais importante voltar alguns passos e refletir sobre os pilares silenciosos que sustentam a própria capacidade de pensar, perceber, decidir e, sobretudo, permanecer humano em um ambiente que, muitas vezes, parece caminhar na direção oposta.

Foi assim que nasceu, de forma planejada, a sequência das nossas últimas edições.

Na verdade, essa conversa começou um pouco antes.

Na edição 155, ao discutirmos “Performance Sustentável”, lançamos uma provocação que continua extremamente atual: o que realmente estamos premiando nas organizações? Questionamos uma cultura que, frequentemente, confunde desempenho com exaustão, velocidade com competência e crescimento com sucesso, esquecendo que resultados verdadeiramente sustentáveis só existem quando pessoas e organizações conseguem prosperar juntas.

Na edição 156, voltamos nosso olhar para outro tema igualmente urgente: “Maturidade e Novos Começos”. Em uma sociedade fascinada pela velocidade e pela novidade, refletimos sobre o risco de desperdiçar justamente aquilo que o tempo oferece de mais precioso: experiência, perspectiva, capacidade de integrar diferentes visões e aprender continuamente. Afinal, maturidade não é uma questão de idade. É uma questão de consciência.

Esses dois dossiês prepararam o terreno para a etapa seguinte da nossa reflexão.

Para além dos modelos de gestão, sempre procuramos focar nas competências humanas que tornam qualquer modelo realmente possível. Ultimamente temos aprofundado o olhar e a analise sobre estas questões.

Foi dentro dessa lógica que construímos as três edições seguintes.

Na edição 157, “A Arte de Pensar Melhor”, nossa intenção era resgatar o valor da leitura como caminho para ampliar o repertório e resistir à superficialidade que caracteriza grande parte da experiência digital contemporânea. Uma das frases que mais ouvimos é: "Não tenho tempo para ler." Pior ainda quando ela vem acompanhada de uma generalização: "Ninguém mais tem tempo para ler uma revista." É como se essa crença coletiva trouxesse certo alívio. Afinal, se ninguém consegue, então o problema deixa de ser meu.

As pesquisas mostram que os principais motivos para o abandono da leitura são a falta de tempo, a preferência por vídeos, o excesso de trabalho, o cansaço mental e a presença constante das redes sociais. A leitura passou a disputar espaço com TikTok, Instagram, WhatsApp, YouTube e plataformas de streaming.

Sabemos, entretanto, que ela continua sendo uma das formas mais acessíveis, econômicas e eficazes de ampliar repertório e desenvolver a capacidade de reflexão. Diferentemente do consumo acelerado de vídeos e áudios, ler exige participação ativa do cérebro. A leitura favorece um processamento mais profundo das ideias, estimula conexões entre conhecimentos e amplia significativamente nossa capacidade de compreender a realidade.

Percebe por que insistimos tanto para que você coloque a leitura na agenda?

Na edição seguinte, 158, “Presença”, avançamos para o segundo pilar. Afinal, repertório, por si só, não transforma ninguém. É preciso desenvolver a capacidade de perceber a realidade com mais clareza, escutar verdadeiramente as pessoas e estar inteiro no momento presente.

A presença é uma prática cotidiana. Exige intenção, disciplina e escolhas conscientes. O celular, as redes sociais, as notificações e o fluxo interminável de conteúdos disputam nossa atenção a todo instante. Muitas vezes oferecem a sensação de uma vida mais intensa e ocupam rapidamente os espaços de silêncio, justamente aqueles em que nossos pensamentos, inquietações e reflexões costumam surgir.

Curiosamente, momentos que poderiam se transformar em excelentes oportunidades para exercitar a presença, uma fila no banco, a sala de espera de um consultório, uma viagem de ônibus ou metrô, acabam sendo preenchidos quase automaticamente pelas telas. Basta olhar ao redor. Em poucos segundos percebemos dezenas de pessoas fisicamente no mesmo ambiente, mas mentalmente absorvidas por um universo digital que as afasta do único tempo em que a vida realmente acontece: o agora.

Faltava, entretanto, um terceiro e decisivo passo. Porque compreender melhor e perceber melhor ainda não garantem boas decisões.

É justamente nesse espaço que nasce o tema desta edição 159: “Discernimento”.

Se o repertório amplia nossa compreensão e a presença amplia nossa percepção, o discernimento transforma ambas em julgamento. É ele que nos permite distinguir o essencial do acessório, separar fatos de interpretações, reconhecer o que realmente importa e escolher o caminho mais responsável quando nenhuma alternativa parece perfeita.

Ao construir este dossiê, buscamos mostrar como esse tema dialoga diretamente com um dos maiores paradoxos enfrentados hoje pelas organizações. Treinamos líderes para desenvolver pessoas e, em seguida, lhes entregamos agendas que mal lhes permitem encontrar pessoas. Falamos sobre escuta profunda para executivos que vivem interrompidos por notificações, reuniões e urgências. Defendemos a liderança humanizada em ambientes que continuam premiando, quase exclusivamente, velocidade, disponibilidade permanente e resultados imediatos.

Conhecimento, sozinho, não transforma comportamento quando a própria rotina impede sua aplicação. Talvez o desafio mais urgente das lideranças contemporâneas não seja aprender novas ferramentas, participar de mais um treinamento ou trabalhar ainda mais horas. Talvez seja recuperar a capacidade de discernir. Discernir onde vale a pena investir tempo e energia. Discernir quando acelerar e quando desacelerar. Discernir aquilo que realmente produz valor daquilo que apenas consome atenção. Em outras palavras, recuperar a liberdade de escolher conscientemente, em vez de simplesmente reagir ao próximo estímulo.

Foi para jogar luz sobre esse desafio que estruturamos os cinco artigos deste dossiê.

Começamos procurando compreender o que realmente é o discernimento e por que ele se tornou uma competência tão necessária. Em seguida, investigamos os atalhos invisíveis da nossa própria mente e os vieses que silenciosamente comprometem nosso julgamento. Depois refletimos sobre a Inteligência Artificial e mostramos que, quanto mais abundantes se tornam as respostas, maior passa a ser o valor das boas perguntas. No quarto artigo ampliamos o olhar para o discernimento coletivo, mostrando que nenhuma liderança enxerga sozinha toda a realidade. E encerramos discutindo talvez sua dimensão mais humana: o preço de decidir, quando escolher bem significa, muitas vezes, desagradar.

Espero que estas páginas sejam lidas com a mesma serenidade com que foram pensadas e escritas.

Em um tempo que nos empurra para respostas cada vez mais rápidas, talvez a maior contribuição que possamos oferecer seja algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais valioso: criar um espaço para pensar melhor, perceber melhor e discernir melhor. Porque é assim, um passo de cada vez, que acreditamos ser possível construir organizações mais conscientes, lideranças mais humanas e relações de trabalho mais dignas.

Como acontece em cada edição, o dossiê é apenas uma parte da nossa conversa. Ao seu redor, reunimos colunas que ampliam o tema por outros caminhos e trazem diferentes olhares para questões que atravessam o desenvolvimento humano e a vida nas organizações.

Na coluna “GEC e a Excelência em Coaching & Mentoring”, Rosane Schikmann nos conduz a uma reflexão sobre Segurança Psicológica, mostrando como o silêncio de pessoas competentes pode revelar muito mais sobre o ambiente em que trabalham do que sobre elas próprias.

Em “Diversidade Cognitiva”, Carlla Zanna provoca uma distinção importante entre boa intenção e verdadeira inclusão. Seu artigo nos convida a perceber como diferentes formas de pensar, processar informações e se comunicar precisam encontrar condições para contribuir plenamente.

Já Calebe Luo, em “Consultor Empreendedor”, olha para um universo bastante prático: a transformação das buscas na internet e o impacto da Inteligência Artificial sobre a maneira como profissionais precisam construir relevância e visibilidade. A provocação é interessante: mais importante do que repetir palavras-chave é compreender o que realmente passa pela cabeça de quem procura ajuda.

E fechamos nossa jornada com duas colunas que, cada uma à sua maneira, convidam a ampliar o olhar. Em “PQP – Pra Quem Pensa”, Carlos Legal nos apresenta a “morabeza”, uma palavra cabo-verdiana que reúne hospitalidade, acolhimento e gentileza e que talvez tenha muito a ensinar às relações no mundo corporativo.

Para encerrar, “Era uma vez... Storytelling para humanizar”, de Robson Santarém, traz a história da “Pedra da Felicidade”, uma pequena fábula sobre desejos, escolhas e a descoberta de que aquilo que procuramos para nós pode ganhar um significado completamente diferente quando conseguimos compartilhá-lo com alguém.

Assim, entre conceitos, provocações, experiências práticas e histórias, esta edição procura fazer aquilo que acreditamos ser a essência da Revista Coaching Brasil: oferecer diferentes janelas para olhar a mesma realidade e, quem sabe, enxergar algo que ainda não havíamos percebido.

 

Te desejo, como sempre, uma excelente leitura.

 

Com meu abraço fraterno,

 

Luciano Lannes

Editor da Revista Coaching Brasil


Artigo publicado em 11/08/2026
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