Por que recebemos mais informa es do que nunca mas nos sentimos exaustos diante de um texto profundo nbsp Sejam muito bem-vindos e bem-vindas ao primeiro artigo de um dossi que venho gestando h muitos meses Ao longo deste texto abordaremos a obnubila o cognitiva a profus o de est mulos fragment rios a ilus ria erudi o proporcionada pelo acesso ub quo informa o e o gradual enfraquecimento da capacidade de perscrutar nuances aquilatar argumentos concatenar ideias deslindar complexidades e sustentar elucubra es intelectuais mais sofisticadas nbsp Caso algumas das palavras e express es acima lhe pare am pouco familiares n o se preocupe Eu tamb m n o conhecia muitas das palavras que utilizo hoje Elas chegaram at mim da mesma forma que chegam a qualquer pessoa pela leitura Ningu m amplia o vocabul rio por osmose Palavras novas entram na nossa vida quando encontramos autores cuja trajet ria n o se parece com a nossa pessoas que carregam outras hist rias outras d vidas outras certezas e que ao escrever a partir desse lugar diferente nos convidam a habitar perspectivas que jamais ter amos constru do a partir do referencial que vemos vivemos e entendemos o mundo E talvez seja justamente a que comece a transforma o que este dossi pretende discutir Voc se lembra da ltima vez em que come ou a ler um livro e sem perceber perdeu a no o do tempo Quando as p ginas pareciam virar sozinhas e o mundo ao redor desaparecia por alguns instantes Para muitas pessoas essa experi ncia tornou-se cada vez mais rara Quando ramos crian as a leitura tinha algo de m gico Bastavam algumas palavras para que nossa imagina o constru sse castelos florestas encantadas naves espaciais ou mundos inteiros N o receb amos imagens prontas n s as cri vamos Ao ler uma hist ria o c rebro assumia o papel de diretor roteirista cen grafo e ator Cada personagem ganhava um rosto nico e cada ambiente era erguido a partir da nossa pr pria imagina o A leitura era em sua ess ncia uma experi ncia ativa Hoje entretanto algo mudou Nossa tela mental foi gradualmente substitu da por telas externas que fazem quase todo o trabalho por n s V deos entregam imagens prontas redes sociais oferecem est mulos constantes not cias chegam resumidas em manchetes e algoritmos decidem o que veremos a seguir Sem perceber passamos de criadores de imagens para consumidores passivos de est mulos A neurocientista cognitiva Maryanne Wolf autora de O C rebro no Mundo Digital explica que o c rebro humano n o nasceu programado para ler Diferentemente da fala que surge naturalmente a leitura exige a constru o de circuitos neurais complexos uma conquista cultural extraordin ria Quando lemos profundamente ativamos simultaneamente reas relacionadas linguagem mem ria imagina o empatia e pensamento cr tico A leitura profunda n o apenas transmite informa es ela transforma a forma como pensamos Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas estranhem a sensa o de esfor o quando tentam voltar a ler N o perderam a capacidade de compreender textos Apenas passaram anos treinando outra habilidade a de alternar continuamente a aten o Mas esses circuitos precisam ser exercitados E justamente a que surge um dos grandes desafios do nosso tempo O tsunami de fragmentos Nos ltimos vinte anos vivemos mergulhados em uma avalanche de informa es Notifica es Mensagens V deos curtos Podcasts E-mails Alertas Manchetes Nunca tivemos acesso a tanto conte do e paradoxalmente nunca tivemos tanta dificuldade para permanecer alguns minutos concentrados em um nico texto Pesquisas conduzidas pelo Nielsen Norman Group refer ncia mundial em estudos sobre comportamento digital demonstraram que a maioria das pessoas n o l conte dos online da forma tradicional Elas seguem um padr o conhecido como Leitura em F os olhos percorrem rapidamente a primeira linha passam parcialmente pela segunda e em seguida descem pela lateral da p gina...