Queridas amigas e queridos amigos da Revista Coaching Brasil.
Antes de falar sobre esta edição, preciso compartilhar com vocês uma notícia que nos tocou profundamente: no dia 9 de junho, perdemos Rosa Krausz.
Na edição de fevereiro, eu havia comunicado o encerramento de sua coluna "Observatório do Coaching", a pedido dela, em razão de questões de saúde. Poucos meses depois, nos despedimos de uma das vozes mais lúcidas, generosas e respeitadas da história do Coaching brasileiro. Sua contribuição ultrapassa em muito os textos que publicou nestas páginas. Rosa ajudou a formar gerações de profissionais, sempre estimulando a reflexão crítica, o pensamento consistente, a boa leitura e o compromisso ético com o desenvolvimento humano. Sua presença permanecerá viva na memória de todos que tiveram o privilégio de aprender com ela.
Mas, precisamos seguir em frente. "Em direção ao futuro", expressão que ela utilizava há tantos anos em sua apresentação, e que hoje ganha um significado ainda mais especial.
E talvez não exista forma mais bonita de honrá-la do que com esta edição.
Existe uma pergunta que carrego comigo há muitos anos, e que, confesso, às vezes me tira o sono: em uma época em que nunca tivemos acesso a tanta informação, por que parece que estamos pensando cada vez menos?
Foi movido por esse incômodo profundo, e por um certo alarme silencioso diante do que observo em salas de aula, reuniões e conversas com líderes, que nasceu o dossiê desta edição. Uma edição que, para mim, é também uma espécie de manifesto afetivo em defesa de algo que está se tornando perigosamente escasso: a nossa capacidade de pensar com profundidade. O tema é "A Arte de Pensar Melhor — como a leitura amplia o discernimento, o repertório e a qualidade das decisões".
Nas páginas do nosso dossiê, você encontrará cinco artigos que escrevi com o coração e com 28 anos de estrada no desenvolvimento de pessoas. No primeiro, convido você a olhar de frente para a ilusão do conhecimento: aquela sensação enganosa de que, porque acessamos muita informação, já compreendemos o mundo. A neurociência, felizmente, tem muito a dizer sobre isso. No segundo, mergulhamos na crise da atenção e no mito sedutor da multitarefa, que a ciência, sem piedade, já destruiu. No terceiro, apresento a matemática silenciosa do repertório: por que apenas quinze minutos diários de leitura produzem resultados que a maioria das pessoas subestima escandalosamente?. No quarto, enfrentamos uma verdade tão simples, quanto desconfortável: quem não lê, pensa com a cabeça dos outros. E no quinto e último artigo, chegamos ao que a neurociência revela sobre o impacto da leitura no cérebro, e na nossa capacidade de compreender e sentir o outro.
Como é tradição na nossa revista, essa teia de reflexões se estende e se enriquece pelas colunas desta edição, formando um mosaico que vai muito além do tema central.
Emerson Ciociorowski, na coluna do GEC, nos provoca com uma pergunta que poucos gestores têm coragem de fazer em voz alta: como está a inteligência coletiva da sua organização? Ele nos lembra, com a autoridade de quem viveu isso na pele, que tecnologia amplia velocidade, mas não substitui a qualidade do pensamento compartilhado.
Carlla Zanna retorna com sua lente poderosa sobre a diversidade cognitiva, desta vez revelando um padrão que coaches precisam urgentemente compreender: o colapso executivo silencioso de mulheres neurodivergentes que foram confundindo sobrecarga crônica com falta de disciplina. É leitura obrigatória.
Calebe Luo nos traz as novidades do Google I/O 2026 e o impacto dos agentes de IA nos nossos negócios, com aquela clareza objetiva e perspicaz que só ele tem para traduzir o mundo digital em consequências práticas para quem vive de consultoria e Coaching.
William Sato nos presenteia com uma reflexão brilhante sobre o momento em que a IA começa a imitar o ser humano ao aprender com a própria experiência. E nos lembra, com elegância, do que continua sendo irredutivelmente nosso: a consciência, a empatia, o julgamento e a responsabilidade pelo significado da vida.
Thierry Cintra Marcondes, em seu segundo artigo pela nossa revista, nos entrega algo que deveria estar na pauta de todo conselho de administração: a inteligência emocional não é "soft skill", é infraestrutura. Sem ela, nenhuma estratégia se sustenta.
Carlos Legal, com a profundidade de quem praticou Ashtanga Vinyasa Yoga por anos e leu Rickson Gracie com atenção, nos convida a desenvolver uma das competências mais raras do nosso tempo: a capacidade de sustentar conforto no desconforto. Porque crescimento real raramente acontece em ambientes perfeitamente seguros.
E Robson Santarém fecha a edição como só ele sabe: com uma fábula chinesa sobre um mestre e seu discípulo descendo uma montanha, lembrando-nos de que o que se vê do topo não é o mesmo que se vê ao descer, e que essa mudança de perspectiva é justamente o que abre espaço para a sabedoria genuína.
Esta é uma edição que nos convida a desacelerar para pensar melhor. A questionar a cultura do atalho e da resposta instantânea. A redescobrir que existe uma diferença enorme entre estar informado e verdadeiramente compreender.
Como Herbert Simon já nos lembrava há mais de cinquenta anos: uma riqueza de informações cria uma pobreza de atenção. E talvez a forma mais acessível, e mais revolucionária, de resistir a isso seja simplesmente: ler.
Que esta leitura traga clareza, profundidade e coragem para a sua jornada, e que você pense duas vezes na próxima vez que for dizer: “Não tenho tempo para ler.
Com meu abraço fraterno,
Luciano Lannes
Editor da Revista Coaching Brasil
Artigo publicado em 16/06/2026