Eu tenho me perguntado com uma frequ ncia cada vez mais inquietante O que est acontecendo com o ser humano N o falo apenas das not cias espantosas sobre todo tipo de viol ncia e corrup o que tem circulado pelas manchetes cotidianamente Nem dos casos escabrosos que exp em e t m derrubado figuras p blicas pelo mundo nem das den ncias escandalosamente abafadas ou das estruturas de poder que parecem proteger os pr prios desvios Falo de algo mais difuso cotidiano e talvez ainda mais perigoso nbsp A sensa o de que estamos nos acostumando O que vemos diariamente diante dos nossos olhos n o uma sucess o aleat ria de eventos isolados a eros o silenciosa da confian a nbsp essa teia invis vel que conecta indiv duos sustenta institui es estrutura contratos sociais e torna poss vel a pr pria conviv ncia civilizada Quando os fios dessa teia se fragilizam a suspeita passa a reger as nossas rela es Ai as palavras perdem peso e os compromissos se relativizam transformando o outro de parceiro a potencial amea a O dano real n o se limita ao desvio financeiro ao abuso de poder ou manipula o institucional O dano mais profundo est na normaliza o do absurdo Na constru o silenciosa da narrativa de que existem regras distintas para pessoas diferentes de que o status do cargo pode se sobrepor ao car ter de que os resultados justificam os meios de que a influ ncia pode substituir a integridade E pouco a pouco o inaceit vel deixa de chocar tornando-nos anestesiados diante do caos cotidiano Mas minha inquieta o n o se restringe s altas esferas nem aos grandes esc ndalos Eu a vejo na vida comum todos os dias No lixo abandonado nas cadeiras do aeroporto como se o espa o p blico fosse territ rio sem responsabilidade compartilhada Nos motoristas dividindo sua aten o com celulares ignorando todos os riscos No carro estacionado sobre a cal ada obrigando pedestres a se arriscarem na rua Recentemente ao fazer um pedido leg timo e educado para que o motorista retirasse o ve culo recebi em troca um olhar c nico duro resistente e arrogante Nesse cen rio at mesmo a viol ncia absurda contra mulheres crian as e os mais vulner veis absorvida pelo discurso p blico como dado estat stico O sofrimento concreto se dilui em n meros A indigna o cede espa o an lise fria E aquilo que deveria nos mobilizar como sociedade passa a ser apenas mais um indicador a ser acompanhado nbsp Crimes transformam-se em narrativas Casos extremos passam a ser debatidos mais como espet culo do que como...