icon-bloqueado icon-busca arrow-down-sign-to-navigate

Edição #154 - Março 2026

Localize rapidamente o conteúdo desejado

O silêncio que fala. A interdição do debate político e a crise da palavra pública

Da censura expl cita autocensura digital como a supress o do di logo plural corr i a democracia empobrece a conviv ncia e transforma a esfera p blica em um campo de batalha sem linguagem comum Revista ID uma publica o apoiada pelos leitores Para receber novos posts e apoiar nosso trabalho considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga A interdi o do debate pol tico raramente chega com fanfarra Ela n o costuma anunciar seu nome em cartazes nem desfilar com a contund ncia de um decreto expl cito que pro be palavras e pune frases Ela quase sempre uma presen a que se insinua s vezes entra pela porta da frente com o uniforme conhecido da censura estatal outras vezes atravessa a janela disfar ada de zelo moral prote o de sensibilidades urg ncia de seguran a p blica ou mesmo de higiene informacional Seu movimento preferido por m o do ar invis vel penetrante naturalizado Quando percebemos a conversa j ficou rarefeita o vocabul rio encolheu e a sociedade aprendeu a respirar em volumes menores Falar em interdi o do debate pol tico falar daquilo que acontece quando uma comunidade perde por imposi o ou por h bito a capacidade de sustentar diverg ncias sem se romper quando temas inteiros deixam de ser discut veis quando determinados grupos passam a ser tratados n o como interlocutores mas como anomalias e quando a esfera p blica mdash este lugar onde a pol tica deveria ocorrer como encontro mdash vira um corredor estreito patrulhado por guardi es de um consenso fabricado ou de um conflito permanente N o se trata apenas de impedir a circula o de informa es ou opini es trata-se de restringir o pr prio campo do poss vel como se a realidade coletiva tivesse uma moldura r gida e qualquer tentativa de ampli -la fosse um ato de vandalismo A hist ria oferece exemplos cl ssicos desse fen meno e eles ajudam a identificar o que h de antigo e o que h de novo na interdi o contempor nea Regimes autorit rios do s culo XX aperfei oaram a censura formal cortar textos fechar jornais controlar emissoras prender opositores banir partidos reescrever livros escolares Ali o silenciamento era uma pol tica p blica e seu prop sito era claro reduzir o pluralismo a um coro obediente Mas a interdi o do debate pol tico n o exclusiva das ditaduras Democracias tamb m podem adoecer n o necessariamente por falta de elei es mas por corros o do ambiente em que as elei es fazem sentido Quando o debate se torna imposs vel a disputa pelo poder se emancipa de qualquer compromisso com o comum e se alimenta apenas de lealdades tribais medo e ressentimento O que muda na paisagem atual que a interdi o do debate pol tico n o depende apenas do Estado Ela pode emergir do mercado de plataformas digitais de grupos sociais organizados de estruturas informais de puni o e recompensa e sobretudo da soma de incentivos que transforma a conversa p blica em espet culo O espa o onde a pol tica se manifesta hoje tem luzes fortes e tempo curto A din mica das redes privilegia a frase que fere a ironia que viraliza o recorte que humilha e a den ncia que engaja Quem busca nuance parece falar baixo no meio de um est dio Quem tenta contextualizar acusado de relativizar E quem faz perguntas em vez de empunhar certezas corre o risco de ser confundido com c mplice do inimigo A interdi o se instala justamente a quando a pr pria forma de comunicar passa a punir o pensamento lento o argumento completo a d vida honesta A fil sofa Hannah Arendt ao refletir sobre a pol tica como a o e discurso entre pessoas plurais oferece um ponto de partida luminoso para entender o que se perde quando o debate interditado A pol tica para Arendt n o s administra o de recursos ou disputa por cargos o exerc cio de aparecer diante dos outros falar e agir em um mundo compartilhado Quando esse mundo comum se dissolve seja porque os fatos se tornam negoci veis seja porque o outro deixa de ser reconhecido como humano pleno o terreno da pol tica vira p ntano E p ntanos n o sustentam pontes Eles engolem A interdi o do debate nesse sentido n o apenas um problema de liberdade de express o em abstrato um ataque direto possibilidade de conviv ncia democr tica porque sem linguagem comum e sem reconhecimento m tuo n o h como construir acordos administrar conflitos ou sequer definir problemas coletivos J rgen Habermas ao analisar a esfera p blica e a ideia de uma comunica o orientada ao entendimento ajuda a nomear outra dimens o do problema a de que o debate pol tico n o apenas um direito mas um m todo civilizat rio Se a esfera p blica deveria funcionar como um lugar de forma o da opini o e da vontade coletiva ent o ela depende de condi es m nimas acesso a informa o pluralidade de fontes disposi o para justificar argumentos abertura ao contradit rio e regras que impe am a coa o Quando essas condi es s o corro das o debate perde seu car ter deliberativo e passa a ser colonizado por outras l gicas mdash a l gica do marketing do esc ndalo do medo da manipula o do c lculo frio de audi ncia A interdi o nesse caso n o precisa proibir a fala basta distorcer o ambiente de modo que a fala n o consiga cumprir sua fun o uma censura por satura o e por deforma o Em vez da tesoura o ru do em vez do sil ncio imposto a algazarra programada Michel Foucault por sua vez nos lembra que o discurso sempre atravessado por rela es de poder e que as sociedades estabelecem procedimentos para controlar o que pode ser dito por quem com que legitimidade e sob quais condi es N o existe debate pol tico completamente inocente e isso importante A interdi o pode acontecer quando certos grupos s o sistematicamente tratados como incompetentes para falar indignos de participar ou quando temas s o declarados fora de quest o por conveni ncia tradi o tabu ou interesse Tamb m pode acontecer quando o debate permitido apenas dentro de um per metro estreito onde se discute o detalhe mas n o a estrutura a superf cie mas n o o fundamento aqui que a reflex o de Noam Chomsky sobre os filtros da m dia e a manufatura do consentimento dialoga com o presente muitas sociedades n o precisam proibir ideias basta confin -las a uma margem inofensiva rotul -las de radicais quando amea am interesses estabelecidos ou enquadrar o dissenso como irresponsabilidade moral Mas h ainda uma camada psicol...
Para ler este artigo completo...
Faça login ou conheça as vantagens de ser premium.
Faça seu login Veja as vantagens de ser Premium
Gostou deste artigo? Confira estes da mesma coluna:

O Valor de Desenvolver a Compaixão para Pessoas Sensíveis

Como uma pessoa sensível, minha formação em coaching me ofereceu a oportunidade de desenvolver minha capacidade de compaixão. Sempre fui altamente sintonizada com as energias das outras pessoas, sentindo a necessidade de tornar as coisas melhores e mais confortáveis para quem estava ao meu redor, o que era uma maneira extremamente desgastante de viver. A formação em coaching me ensinou que... leia mais

11 minutos

Entre a ordem e a democracia: o que a escola ensina quando adota um ethos militar  

Quando a violência atravessa os portões da escola, ou quando a indisciplina, o medo e a evasão viram rotina, a promessa de “colocar ordem” ganha apelo imediato. É nesse terreno que o modelo de escolas cívico-militares se fortalece, oferecendo disciplina, civismo e hierarquia como solução rápida. Mas, quando a vida escolar passa a ser organizada por uma lógica de comando, a... leia mais

12 minutos
O melhor conteúdo sobre Coaching em língua Portuguesa
a um clique do seu cerébro
Seja Premium