Da censura expl cita autocensura digital como a supress o do di logo plural corr i a democracia empobrece a conviv ncia e transforma a esfera p blica em um campo de batalha sem linguagem comum Revista ID uma publica o apoiada pelos leitores Para receber novos posts e apoiar nosso trabalho considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga A interdi o do debate pol tico raramente chega com fanfarra Ela n o costuma anunciar seu nome em cartazes nem desfilar com a contund ncia de um decreto expl cito que pro be palavras e pune frases Ela quase sempre uma presen a que se insinua s vezes entra pela porta da frente com o uniforme conhecido da censura estatal outras vezes atravessa a janela disfar ada de zelo moral prote o de sensibilidades urg ncia de seguran a p blica ou mesmo de higiene informacional Seu movimento preferido por m o do ar invis vel penetrante naturalizado Quando percebemos a conversa j ficou rarefeita o vocabul rio encolheu e a sociedade aprendeu a respirar em volumes menores Falar em interdi o do debate pol tico falar daquilo que acontece quando uma comunidade perde por imposi o ou por h bito a capacidade de sustentar diverg ncias sem se romper quando temas inteiros deixam de ser discut veis quando determinados grupos passam a ser tratados n o como interlocutores mas como anomalias e quando a esfera p blica mdash este lugar onde a pol tica deveria ocorrer como encontro mdash vira um corredor estreito patrulhado por guardi es de um consenso fabricado ou de um conflito permanente N o se trata apenas de impedir a circula o de informa es ou opini es trata-se de restringir o pr prio campo do poss vel como se a realidade coletiva tivesse uma moldura r gida e qualquer tentativa de ampli -la fosse um ato de vandalismo A hist ria oferece exemplos cl ssicos desse fen meno e eles ajudam a identificar o que h de antigo e o que h de novo na interdi o contempor nea Regimes autorit rios do s culo XX aperfei oaram a censura formal cortar textos fechar jornais controlar emissoras prender opositores banir partidos reescrever livros escolares Ali o silenciamento era uma pol tica p blica e seu prop sito era claro reduzir o pluralismo a um coro obediente Mas a interdi o do debate pol tico n o exclusiva das ditaduras Democracias tamb m podem adoecer n o necessariamente por falta de elei es mas por corros o do ambiente em que as elei es fazem sentido Quando o debate se torna imposs vel a disputa pelo poder se emancipa de qualquer compromisso com o comum e se alimenta apenas de lealdades tribais medo e ressentimento O que muda na paisagem atual que a interdi o do debate pol tico n o depende apenas do Estado Ela pode emergir do mercado de plataformas digitais de grupos sociais organizados de estruturas informais de puni o e recompensa e sobretudo da soma de incentivos que transforma a conversa p blica em espet culo O espa o onde a pol tica se manifesta hoje tem luzes fortes e tempo curto A din mica das redes privilegia a frase que fere a ironia que viraliza o recorte que humilha e a den ncia que engaja Quem busca nuance parece falar baixo no meio de um est dio Quem tenta contextualizar acusado de relativizar E quem faz perguntas em vez de empunhar certezas corre o risco de ser confundido com c mplice do inimigo A interdi o se instala justamente a quando a pr pria forma de comunicar passa a punir o pensamento lento o argumento completo a d vida honesta A fil sofa Hannah Arendt ao refletir sobre a pol tica como a o e discurso entre pessoas plurais oferece um ponto de partida luminoso para entender o que se perde quando o debate interditado A pol tica para Arendt n o s administra o de recursos ou disputa por cargos o exerc cio de aparecer diante dos outros falar e agir em um mundo compartilhado Quando esse mundo comum se dissolve seja porque os fatos se tornam negoci veis seja porque o outro deixa de ser reconhecido como humano pleno o terreno da pol tica vira p ntano E p ntanos n o sustentam pontes Eles engolem A interdi o do debate nesse sentido n o apenas um problema de liberdade de express o em abstrato um ataque direto possibilidade de conviv ncia democr tica porque sem linguagem comum e sem reconhecimento m tuo n o h como construir acordos administrar conflitos ou sequer definir problemas coletivos J rgen Habermas ao analisar a esfera p blica e a ideia de uma comunica o orientada ao entendimento ajuda a nomear outra dimens o do problema a de que o debate pol tico n o apenas um direito mas um m todo civilizat rio Se a esfera p blica deveria funcionar como um lugar de forma o da opini o e da vontade coletiva ent o ela depende de condi es m nimas acesso a informa o pluralidade de fontes disposi o para justificar argumentos abertura ao contradit rio e regras que impe am a coa o Quando essas condi es s o corro das o debate perde seu car ter deliberativo e passa a ser colonizado por outras l gicas mdash a l gica do marketing do esc ndalo do medo da manipula o do c lculo frio de audi ncia A interdi o nesse caso n o precisa proibir a fala basta distorcer o ambiente de modo que a fala n o consiga cumprir sua fun o uma censura por satura o e por deforma o Em vez da tesoura o ru do em vez do sil ncio imposto a algazarra programada Michel Foucault por sua vez nos lembra que o discurso sempre atravessado por rela es de poder e que as sociedades estabelecem procedimentos para controlar o que pode ser dito por quem com que legitimidade e sob quais condi es N o existe debate pol tico completamente inocente e isso importante A interdi o pode acontecer quando certos grupos s o sistematicamente tratados como incompetentes para falar indignos de participar ou quando temas s o declarados fora de quest o por conveni ncia tradi o tabu ou interesse Tamb m pode acontecer quando o debate permitido apenas dentro de um per metro estreito onde se discute o detalhe mas n o a estrutura a superf cie mas n o o fundamento aqui que a reflex o de Noam Chomsky sobre os filtros da m dia e a manufatura do consentimento dialoga com o presente muitas sociedades n o precisam proibir ideias basta confin -las a uma margem inofensiva rotul -las de radicais quando amea am interesses estabelecidos ou enquadrar o dissenso como irresponsabilidade moral Mas h ainda uma camada psicol...