Querido(a) leitor(a),
Alguns temas não surgem de um planejamento editorial meticuloso. Eles emergem. Brotam de conversas aparentemente comuns, de encontros certos, de escutas atentas no momento exato.
Foi assim com esta edição.
Em novembro, enquanto assistia a uma mesa redonda no Congresso de Action Learning, em São Paulo, acompanhava com interesse as reflexões de Mônica Viveiros Correia, Suzan Dias Koike e Andréa Fuks. O diálogo fluía com profundidade, como costuma acontecer quando há repertório e experiência. Até que, em meio ao debate, o assunto cruzou com os processos de demissão nas organizações.
O tom mudou. As falas ganharam densidade. Vieram relatos, incômodos, indignações contidas. Falava-se de desligamentos mal conduzidos, de silêncios constrangedores, de decisões tratadas como procedimentos frios, desconectados do impacto humano que carregam. Ali, naquele instante, algo ficou muito claro para mim: aquelas três profissionais estavam tocando num ponto sensível demais para ficar restrito àquela sala.
Terminada a mesa redonda, fui conversar com elas. O convite surgiu quase como uma consequência natural da conversa: coordenar um dossiê sobre Demissão Humanizada. O aceite veio com entusiasmo, seriedade e compromisso. E o que você tem agora em mãos é o resultado desse encontro, construído em tempo recorde, mas com a profundidade que o tema exige.
O dossiê que compõe esta edição não busca romantizar demissões, nem oferecer fórmulas prontas. Ele se propõe a sustentar perguntas difíceis. O que uma demissão revela sobre a cultura de uma organização? O que acontece com quem fica? Onde entra o luto, quase sempre invisível? Como equilibrar necessidade organizacional, responsabilidade emocional e dignidade humana?
Mas esta edição não se esgota no dossiê. Ao longo das páginas, seguimos ampliando o debate sobre aprendizagem, liderança, relações, consciência e sentido no trabalho. Cada artigo, à sua maneira, conversa com um mesmo pano de fundo: a urgência de organizações mais maduras, reflexivas e humanas.
Talvez o fio invisível que conecta todos os textos desta edição seja justamente este: não há método, processo ou estratégia que se sustente quando ignoramos as pessoas. Seja ao aprender, ao liderar, ao decidir ou ao encerrar ciclos, o modo como fazemos as coisas importa tanto quanto o que fazemos.
Desejo que esta leitura provoque incômodos férteis. Que nos lembre de que o último dia de alguém em uma organização também educa, comunica valores e deixa marcas. Porque, no fim das contas, desenvolvimento humano não acontece apenas nos começos. Ele se revela, com força especial, na forma como lidamos com os finais.
Boa leitura.
Fique com meu abraço fraterno,
Luciano Lannes
Editor da Revista Coaching Brasil
Artigo publicado em 06/01/2026