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Coaching não é o outro lado do paraiso

Luciano Santos Lannes Por Luciano Santos Lannes em 07/02/2018

O episódio do aparecimento do Coaching na novela da Globo no início de 2018 deflagrou uma grande e interessante reflexão. Afinal, qual o foco de atuação do Coaching, quais as possibilidades e limites, quais as fronteiras com outras intervenções como a Psicoterapia? E qual imagem da metodologia a população estaria assimilando?

Este texto traz minha visão pessoal como educador organizacional há 20 anos, coach há 10 anos e editor da Revista Coaching Brasil há 5 anos. Minhas motivações pessoais por editar uma publicação sobre Coaching focada no crescente público que vem buscando uma nova profissão, foi construir uma publicação mensal que contribuísse com o pensar analítico, realçando a importância do autodesenvolvimento, e que, acima de tudo, trouxesse a consciência de que Coaching é uma intervenção séria, que faz com que pessoas se exponham e compartilhem seus medos e receios, e para isto, buscam um profissional sério e capacitado para encontrar os caminhos de uma vida com sentido e mais feliz.

O foco agressivo e mercenário de algumas escolas foi a motivação para fazer da revista um contrapeso neste processo, inspirado pela frase de Martin Luther King:

O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.

Decidi também abrir algumas edições restritas a nossos assinantes com o objetivo de trazer ainda mais luz para esta reflexão.  Veja as citações ao longo do texto. Você também pode ver todas as edições abertas 

O CENÁRIO

As redes sociais estão tomadas de propagandas de cursos que prometem ser o Coaching o passaporte para uma liberdade financeira nunca antes vivida. Pessoas dão testemunhos pessoais de independência, de abandono de empregos estáveis para abraçar a carreira que mais dá prazer e satisfação no mundo: ser Coach.

Não é por menos que aqueles que não têm nada a ver com o desenvolvimento humano enquanto carreira ou trabalho, estejam "de saco cheio" de ouvir falar de Coaching. Não lhes tiro a razão.

Como também aconteceu com a PNL nos anos 80 e atualmente com o Marketing Digital e o Coaching, os que mais faturam na área não são os que atuam diretamente na área, mas os que ensinam a atuar, com novas promessas de 4, 5 e até 6 dígitos de faturamento. Ficou elegante falar em 6 dígitos, especialmente se for no prazo de uma semana. A cada dia recebo vários emails e postagens convidando para aulas abertas, webnários, e "lives" onde um expert ensinará alguns dos truques para lotar sua agenda. Veja nossa edição 37, de junho de 2016,  "Coaching Picareta".

OS ATORES E SUAS LINHAS

Assim, a grosso modo, podemos começar uma identificação dos vários atores desta peça dramática, separando-os em duas grandes cestas:

  1.  aqueles que veem o Coaching como um negócio de oportunidade que precisa ser explorado com voracidade e rapidez antes que o rico veio seque;
  2. aqueles que encaram o Coaching como mais do que um instrumento, uma filosofia de desenvolvimento humano que busca ampliar a capacidade deliberativa das pessoas, ampliando seu repertório de respostas e, consequentemente, sua autonomia.

O primeiro grupo tem uma impressionante e competente visão de negócios, que se traduz em domínio de instrumentos de mídia, marketing, propaganda, linguagem hipnótica, redação de scripts eficazes, etc. Este grupo faz um grande barulho na mídia, impacta com postagens e emails para seduzir pessoas a buscar uma solução pronta, supostamente testada e aprovada. Popularizaram termos que fazem o pessoal do segundo grupo arrepiar, como "Perguntas poderosas" e "Sessão matadora". Veja nossa edição número 8, de janeiro de 2014, "Fábrica de Coaches"

O segundo grupo é composto majoritariamente por pessoas mais experientes, oriundas da área de desenvolvimento humano, ou muito afinadas com ela,  conscientes de que a complexidade humana não se deixa traduzir por receitas prontas, perguntas pré formuladas ou roteiros de questionamentos. Sabem que cada ser é único e como tal, merece ser reconhecido e tratado.

O primeiro grupo vende e compra a ideia de como é maravilhoso ir dormir a noite sabendo ter ajudado outras pessoas a conquistar suas metas tão sonhadas.

O segundo grupo rompeu o conceito vertical do "ajudar o outro", para seguir no horizontal do "caminhar juntos".  Uma pessoa que pratica o Coaching de forma madura, consciente e estruturada, sabe que ela precisa ser um espelho muito limpo para que seu cliente, o coachee, possa se ver, nas suas falas, nos seus atos, nas consistências e nas inconsistências, nos vazios, nas crenças sem apoio, no que faz e no que não faz sentido.

A Revista Coaching Brasil foi idealizada para este segundo grupo, e recordo e trago um trecho do editorial da primeira edição, de junho de 2013, onde escrevi:

Realizar sonhos, superar desafios e ser mais feliz. Isto é o que o ser humano busca. Na procura por superar as amarras invisíveis que nos impedem de sermos, termos e fazermos o que queremos, entra em cena um personagem fantástico: o Coach. Personificado em homens e mulheres das mais variadas idades, histórias de vida e formações, ele tem a habilidade de ouvir atentamente, prestando especial atenção ao que não foi dito. Ele coleta informações e as preserva de julgamentos apressados. Ele faz perguntas que, com uma precisão cirúrgica, têm por endereço uma inconsistência na fala do coachee. Provoca, desconcerta, descontrói e instiga a cogitar o novo. Assim, ele poderia também ser um agente de viagens, pois convida a visitar possibilidades, outras realidades e formas de ver, pensar e reagir por vezes nunca antes imaginadas. Como gostaríamos que ele nos dissesse por onde ir, o que fazer e como reagir. Mas nada, ele não solta uma dica sequer. Quando o cliente descobre algo ou decide por um plano de ação, ele, o Coach, mostra um sorriso gostoso, pois é parte deste processo. Ao final, objetivos atingidos, coachee com maior autonomia, o Coach sente uma enorme satisfação, que vem do saber-se parceiro de um processo feito a muitas mãos.

Existem duas linhas muito nítidas nas metodologias das escolas de Coaching: a instrumental e a filosófica.

O primeiro grupo tem como foco um Coaching instrumental, como o próprio nome indica, se apoiando principalmente em questionários, pesquisas e formulários, que ajudam o coach a caminhar no processo de seu cliente. Claro que por ser mais rígida, oferendo guias de balizamento estruturadas, não dá conta da multiplicidade de respostas que uma pessoa apresenta no dia a dia. Tem seu mérito? Com certeza, pois muitos excelentes coaches, no presente, sentiram-se também inseguros em seus inícios.

A segunda linha, a filosófica, encara o Coaching como a "Arte de conectar e perguntar". Aliás esta foi nossa capa da sexta edição, de 2013. Assim, a conexão torna-se a matéria prima básica do processo e não os formulários. A empatia passa a ser o caminho da conexão, de não só sentir o outro em sua complexidade, mas de ver-se no outro, sentir-se no outro.

No templo de Apolo, em Delfos, na Grécia, está escrita a seguinte frase:

"CONHECE-TE A TI MESMO E CONHECERÁS TODO O UNIVERSO E OS DEUSES, PORQUE SE O QUE PROCURAS NÃO ACHARES PRIMEIRO DENTRO DE TI MESMO, NÃO ACHARÁS EM LUGAR ALGUM."

Aqueles que adotam a linha filosófica compreendem ser, eles mesmos, o primeiro objeto de estudo. Conhece-te a ti mesmo, conecta com seus valores, dores, dúvidas, angústias e sonhos. Conecta com suas emoções e deixe que elas te guiem por caminhos inexplorados, mares nunca dantes navegados. Ser parceiro de seu coachee em uma aventura de descobertas, necessariamente exige do coach uma postura investigativa de Sherlock Holmes aliada a uma curiosidade infantil.

O QUE É E O QUE NÃO É COACHING

Talvez você tenha ouvido falar que a origem do termo venha da palavra em inglês, Coach, que significa treinador. Na verdade, como explicou Carla Zanna em seu artigo "O passado da profissão do futuro", publicado também na edição 1, em junho de 2013, "Mas afinal, o que é Coaching", a origem deste termo vem do húngaro “Kocsi”. Kocs é uma cidade na Hungria onde as carruagens, veículos para transporte de pessoas, começaram a ser produzidas no século XV. Para designar tal transporte, utilizou-se a palavra coach ou em português coches. Daí também vem a palavra cocheiro.

O Coach, ou carro, serve para nos levar de um lugar a outro e, com este sentido, a palavra foi levada para o inglês, onde foi utilizada para designar o treinador, principalmente o de esportes. Este sim, é uma pessoa que ensina como fazer, mostra técnicas, aponta erros, corrige cada movimento. O "Coach" do Coaching tem diferenças gritantes deste treinador.

Temos várias definições para o Coaching. Pode ser muito bem resumido como uma parceria entre coach e coachee, com o objetivo de identificar e remover interferências que impedem a manifestação de todo seu potencial criativo e de realização. No Coaching, o coachee aprende a aprender, assim como amplia sua capacidade deliberativa e, consequentemente, sua autoestima e autonomia.

Um dos pilares mais importantes do Coaching é a não diretividade, o que quer dizer que o Coach não pode "palpitar" sobre a vida e a solução dos problemas de seu coachee. O coach acredita que sabemos muito mais do que pensamos saber e que temos a capacidade de encontrar nossas próprias soluções. Para tanto, o papel do coach neste processo é o de questionar, fazer o coachee refletir de uma forma nova, sendo provocado a olhar para pontos que nunca havia visto.

Assim, o Coaching difere de outras intervenções e colocarei as três mais clássicas de serem confundidas:

  • Mentoring: este é um processo onde um profissional experiente ajuda outra pessoa a ampliar sua visão e conhecimento, com o compartilhamento e transferência de experiências. O mentor mostra como fazer, segundo sua vivência, e influencia a ação de seu mentorado. O Mentoring rompe a não diretividade do Coaching por ser este seu maior trunfo.
  • Consultoria: um profissional é contratado para trazer uma solução pronta para determinados problemas da organização ou para conduzir líderes ou times na construção da melhor solução de acordo com sua expertise.
  • Treinador: aquele que instrui, que capacita pessoas na aquisição e domínio de determinadas competências específicas.

AS FRONTEIRAS DO COACHING

Um dos mais espinhosos temas é a definição da fronteira entre o Coaching e a Psicoterapia. Veja nossa edição 27, de agosto de 2015, "As fronteiras do Coaching". O que a princípio pode parecer simples, de fato, não é uma linha pontilhada clara e inequívoca, e desta forma, exige grande competência do coach para identificar que as barreiras ou crenças de seu coachee estão vinculados com temas e situações que precisam de outro profissional, por exemplo o psicólogo.

É muito rudimentar simplificar a diferença entre o Coaching e a Psicoterapia dizendo que o Coaching foca sua ação no presente e futuro e a Psicoterapia se debruça sobre o passado. Todo comportamento presente tem sua origem em um passado e no Coaching buscamos sim identificar o processo de criação de determinadas crenças para que nosso cliente possa desmontar algumas e construir outras. A Escala de Inferência, elaborada por Chris Argyris, é um modelo muito útil para ajudar a compreender como construímos nosso pensar.

Assim, para mim, a diferença significativa entre Coaching e Psicoterapia está na profundidade do mergulho e nos aspectos analisados. Como foi muito bem pontuado pela nota do Conselho Federal de Psicologia sobre a forma como o Coaching está sendo utilizado na novela "O outro lado do paraíso":

...a obra é capaz de formar opinião e trata "com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico". O órgão reitera que é essencial que as pessoas com sofrimento emocional, mental e existencial recebam um tratamento adequado e que ele deve ser realizado pelos profissionais da Psicologia.

Coaching está focado em processos de aprendizagem, de melhoria de performance, mudanças de modelos mentais e o coach precisa estar muto atento aos limites de suas competências.

Assim, a forma como o Coaching vem sendo mostrado através da atuação da personagem Adriana, uma advogada com formação em Coaching, extrapola as fronteiras da conduta ética do Coaching, misturando alhos com bugalhos e trazendo mais danos do que benefícios.

Por uma conduta mais ética e consciente daqueles que veem no Coaching um simples negócio.

Luciano Lannes
Editor

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